Para longe de tudo
- Marcos Ferri

- 2 de mai.
- 1 min de leitura
E + uma dica de música
Por Marcos Ferri

Pegou seus panos de bunda e escafedeu-se. Exigiu trocados, direitos e recompensas. Estava saturado, irritado — mas também alegre, impositivo, imponente.
Cansara-se de ser anulado, posto de escanteio, desvalorizado. Contou os reais e converteu-os em euros. Se era para pastar, que fosse em Londres. Se restava chorar, que chorasse num café em Dublin.
Ah, meu bem, melhor seria descascar as unhas feitas, arranhando pedras europeias, e lamentar-se em Paris.
Jamais imaginara ter coragem de juntar algumas mudas de roupa e se danar pelo mundo. Acostumara-se a peitar quem o insultava, mas, à noite, baixava a cabeça, afundando o rosto exausto no travesseiro para aceitar migalhas.
Migalhas de emprego, de amores, de corpos à mercê.
Era hora de brilhar.
E, se a forma que a vida lhe dera fosse a petulância, que assim fosse: um tapa na cara de quem achou que sacos de batata o derrubariam.
Faz-me rir.
Ah, se todos fossem iguais a você — que não aceita nada menos que muito.
Só lamentava uma coisa: não ver o zoológico roendo-se com suas fotos espalhadas pelas calçadas de Amsterdã.
Não se pode ter tudo. Mas, convenhamos, deve-se tentar.
Senhoras e senhores, "Comfortably Numb":


