Pequenos milagres
- Marcos Ferri

- 31 de mai.
- 3 min de leitura
E + uma dica de música
Por Marcos Ferri

Você embarca em um trem no horário de pico, às 7 horas da manhã de uma quinta-feira gelada em São Paulo. Um daqueles dias em que o trabalhador implora ao universo para ficar na cama, mas a realidade puxa seu edredom, sem dó ou qualquer resquício de piedade.
É preciso ser forte, você diz ao entrar debaixo da ducha. Aos poucos, a água quente vai te acalentando, acalmando, confortando. Tão confortável que, ao pensar no relógio que corre, reflete, triste, em deixar o chuveiro.
É hora de mais uma vez reunir forças e aceitar seu destino. Sai abruptamente do box, secando o corpo com rapidez. É necessário escolher uma nova roupa, quebrando o figurino planejado para o dia. "Você precisa se agasalhar. Está frio", diz a voz imaginária da sua mãe ao seu ouvido. Orientação que nenhum adulto precisa te dar a essa altura da vida. Você é o adulto da vez.
A roupa gelada toca a epiderme.
Você só se pergunta: "Por que, Deus?"
É preciso ter força, já cantaria o mestre Bituca.
Quando você se dá conta, começa a sentir uma das sensações mais maravilhosas da vida: o conforto térmico. Nem frio, nem calor. Você está se sentindo adequado naquele momento.
Agora é a voz do seu professor de física do colegial que toma sua mente de assalto. "A blusa não esquenta o seu corpo, ela retém o calor", dizia ele, com olhos arregalados, cabelos longos desgrenhados, fazendo movimento de autoabraço para contextualizar sua explicação. Aí você lembra que tinha medo dele.
Você esquece o cara de louco da escola e termina seus afazeres. Cabelo arrumado, dente escovado, creme passado, jaquetão alinhado, perfume amadeirado. Pronto.
Agora era só ir... Só ir. Pausa, assustado, e um trailer passa diante de seus olhos, antecedendo o que te espera.
Ônibus atrasado e lotado. Trem lento e lotado (esse lotado mesmo, sei lá quantas pessoas por metro quadrado). O retrato da humilhação te aguarda. Já consegue se ver na terceira ou quarta tentativa de entrar no vagão. No empurra-empurra, você se espreme aos demais transeuntes, tão sofredores quanto você. Já consegue sentir as mãos do guardinha da estação te empurrando para dentro, tentando permitir o fechamento das portas e a partida. Já enxerga a alça da mochila presa na mesma porta. O fungado dos passageiros no cangote.
Aquele mar de desodorante barato, perfume popular, perfume caro, hálito desagradável, cheiro de cobertor sujo, cama revirada, amaciante, creme de cabelo...
O trem lotado é uma promiscuidade. Quase um bacanal.
Você caminha pelas ruas com destino à estação, fazendo o sinal da cruz. Pede aos céus o impossível: um trem vazio, um assento livre e você tranquilamente abraçado com sua mochilinha do trabalho, a verdadeira armadura do CLT.
Doce ilusão. Isso jamais aconteceria em uma quinta-feira gelada de maio.
Eis que o milagre se materializa em forma de trem deserto. Diversos bancos disponíveis. Um sorriso toma seus lábios. É bom demais para ser verdade. A possibilidade de uma em um milhão aconteceu. É real. Apenas por hoje, você pode ser feliz.
Pura coincidência do centro de operações, que precisava enviar a locomotiva de volta justamente naquele horário? Talvez. Acredito mais que a prece chegou lá em cima no momento certo.
A dica de hoje é com Duca Leindecker e seu "Dia Especial", original dele nos tempos da banda Cidadão Quem, mas que muita gente conheceu com a ótima versão do Tiago Iorc:


