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Porque sim

Foto do escritor: Marcos Ferri
Marcos Ferri
há 17 horas
4 min de leitura

E + uma dica de música


Por Marcos Ferri


Foto: Danilo Verpa | Folhapress
Foto: Danilo Verpa | Folhapress

Ah, você achou que eu tinha que ser mais moderado? Menos politizado? Logo eu?


Logo eu, que cresci assistindo a “O Rei do Gado”, entendendo reforma agrária na tela, na novela, às oito da noite. Vendo o tiro do senador, o agro no centro da coisa, a disputa, o poder da terra. Na contradição da manipulação da TV, lá estava eu.


Logo eu, jornalista por escolha, que, até hoje, queria estar na rua para protestar por Vladimir Herzog, ao lado de Dom Paulo Evaristo Arns, puxando um violão com o ainda acreditado Geraldo Vandré.


Logo eu, bem eu, que fui possuído por “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva. Eu, que me senti levantando o Oscar com “Ainda Estou Aqui”, que me senti abraçando Fernanda Torres no Globo de Ouro. Você realmente queria de mim um isentão?


Pois é, lá estava eu, tocando músicas de protesto quando as pessoas nem prestavam atenção. Quando subi num palanque e descobri que falavam de Leonel Brizola.


Logo eu, filho de retirante nordestino, de quem passou fome, de quem cortou um dobrado, de quem veio de tão longe para fazer essa São Paulo acontecer. Logo eu, o filho da diarista.


Logo eu, que olho para Luiz e vejo nele o semblante do meu pai. O semblante cansado de quem veio do Norte para o Sul tentar a vida. O Gonzaga. O Inácio.


Você não esperava coisa diferente de mim. Não.


Eu não fui doutrinado por Marx na universidade. Ledo engano. Eu entendi os teóricos antes. Eu conversei antes. Eu escutei a todos antes.


Bem eu. Bem eu, que fui para a igreja para ser o antilitúrgico, mas segui. Segui firme e forte no meu papel de ir com meu violãozinho, minha guitarra, evangelizar, pois Jesus era humanista e Nossa Senhora, uma mãe carregada de amor, que não faz distinção entre seus rebentos rebeldes.


Eu, que respeito as instituições e até aquilo de que discordo.


Logo eu, que, como bom filho de nordestino, não abaixo a cabeça para ninguém.


Por que não fazer diferente? Por que não ser como todos os outros? Porque sim?


Não é bem essa a resposta.


Depois de carregar a notícia no DNA, de correr com minha câmera para tentar captar a essência das coisas, eu, que andava com meu bloquinho para cima e para baixo, tomando nota, muito antes da IA, você queria mesmo? Você supunha que eu pudesse estar do outro lado?


Ainda mais eu, que vi 2020, que vi 2021, que vi as pessoas morrendo, que vi alguém zombando dos pulmões fracos e da falta de ar.


Não. Não daria para mim. Não daria certo.


Pois eu, eu sou eu. E sei de que lado devo lutar.


Logo eu, que sempre sonhei com esse país, sem saber que país é este.


Nos deram um espelho, e olha nós vendo o mundo doente no escárnio dos ossos e da ração humana.


Tudo bem se não...


Logo eu, que não fui convidado para tal festa pobre. Está tudo bem.


Logo eu, eu mesmo, que respeito Chico, Caetano, Bituca, Djavan, Gil, Bethânia, Gal, Rita Lee Jones, Tom Zé, Renato Russo, Belchior, Mano Brown e Cazuza.


Logo eu, que não abraço o funk, mas não quero que ele desapareça. A música está aí. Logo eu, que digo: dancem.


Eu, que fiquei do lado de Marina quando se revoltou e foi cuidar da própria vida, segurando a onda de ser quem era, pela floresta que nos faz respirar.


Logo eu, que tive dúvidas. Logo eu, que desacreditei. Que me decepcionei.


Eu, que sei criticar quem eu apoio.


Eu, que admito que já me encantei por um tal Ciro.


Eu mesmo, que não quero o fim da direita. Que acredito no Bom Prato salvando vidas todos os dias. Eu mesmo, que vejo que o Bolsa Família nasceu do embrião de FHC.


Eu, que vejo que a continuidade de governo é essencial. Eu, que não me opunha ao PSDB com ódio, apenas com ideias.


Eu, que na pandemia tive que tirar o chapéu para o Doria, mesmo sabendo de todos os erros dele.


Eu mesmo, que comecei pensando que era só vinte centavos e achei lindo ver as ruas tomadas, mas que depois senti o lóbi do impeachment.


Eu mesmo.


Logo eu, poeta apaixonado, romântico ousado. Logo eu, do drama. Um drama que corre na veia e cai no papel.


Logo eu, ator que não deu certo. Aquele ator que fugiu da escola.


Logo eu, tímido, do bullying. Mas que um dia se levantou. Não dava para ser muito diferente, né? Até queria. Mas não dá.


Logo eu, que tentei ser diferente. Logo eu, que critiquei quem era como eu. Logo eu, que entendi, entendi que precisava ser simplesmente eu.


Logo eu, moldado na consciência de classe. Logo eu, aquariano. Logo eu, melancólico.


Logo eu, de Carapicuíba. Logo eu, de Osasco.


Logo eu, que tenho Silva no nome e Ferreira no outro. De árvore genealógica indefinida por esses Brasis que se cruzam.


Eu, que não fui à Flórida. Eu, que escrevo Brasil com S.


Eu, que aperto a mão dos diferentes, que não julgo o que vestem, o que sentem ou como se identificam.


Eu, aquele que reflete com Padre Fábio, que respeita, mas não idolatra Frei, que aprecia Padre Júlio. Que comunga com todos. Obrigado, Zezinho.


Eu, que sou mais Francisco, mas admiro Leão. Que respeito o terreiro, as igrejas de parede preta, a mesa branca e a vela vermelha. Eu, que respeito quem não está em nada disso...


Eu, que ando com o terço no bolso.


Eu, que estou tentando entender o que Jesus quis dizer em ações. Logo eu, que jamais esquecerei as 700 mil mortes...


Logo eu, que fui pra rua.


Eu que não fugi.


Logo eu, que nasci no ano da Constituição...


Logo eu, que sei que não existe perfeição vermelha, verde, amarela ou azul. Logo eu, que entendo que existe limite até no erro.


Eu, que diferencio erro de perversidade.


Logo eu, que não me encaixo na sua caixa. Logo eu, que nunca soube ficar calado.


Ah, meu amor. Logo eu...


Logo eu...



Ficamos com Caetano Veloso...


Queria querer cantar afinado com eles

Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase

Ser indecente

Mas tudo é muito mau




Marcos Ferri - Foto Kaio Nunes - PB.jpg

Eu... um cara de comunicação...

Marcos Ferri é jornalista, músico e escritor. Autor dos livros Obrigado Por Isso (Caravana Editorial, 2025), A Linha do Trem (Cartola Editora, 2019 / reeditado pela Dois Cafés Coletivo Editorial, 2022) e do conto A Casa da Praia, presente na antologia Possessão (Cartola Editora, 2020), além de ser um dos organizadores da coletânea de artigos O Instituto Ação Pela Paz e o Sistema Prisional: 10 anos de Perseveranças e Conquistas (Editora Giostri, 2025). Foi responsável pelo portal de notícias Guitar Talks, dirigiu o documentário O Mergulho Ancestral, co-produziu o filme Luiz Alberto Mendes - Memórias em Letras e integrou diversas bandas — entre elas, a Doravante, na qual também assinou uma série de composições. Atualmente, é responsável pela comunicação e marketing de uma organização social.

 

Entre em contato: marcosferreira.work@gmail.com.

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